terça-feira, 16 de agosto de 2016

Eles sempre souberam.

  Você está quase sozinha.
  É, você sabe, é pelo 'quase' que você ainda não desistiu. Mas você sabe quem não foi inocente. Eles sabiam de tudo desde o início.

  Eles souberam quando ele disse que separava mulher de casar pra se divertir. Mas sabe como é, né? Foi uma vez só. A sociedade faz os meninos pensarem assim e, até então, eles também são vítima disso.
Mas eles também souberam das pequenas mentiras que ele contava. Ele também disse que a ex contou pra mãe dele sobre coisas pessoais suas, pra te ferrar. Mas você sabe quem contou sobre você, não sabe?

  Você sabe o que fez a mãe dele odiá-la, não sabe?

  Eles souberam desde o início que o ciúmes dele não era normal. Eles souberam também que a forma que ele te tratava não era aceitável. Não pra você. Mas talvez desde esse momento eles já nem ligavam tanto. Ele cortava sua fala na roda da conversa, ele brincava com suas características físicas e intelectuais. Mas eram só brincadeiras. Ninguém nunca achou anormal. Eles souberam quando ele começou a te xingar. A te chamar de burra, lixo, doente e louca. Claro, louca não poderia faltar. Continuaram todos achando normal. Ou um leve espanto, mas nada demais. 

     Ninguém deixava sequer de nutrir amor ou carinho por ele.

  Eles souberam sobre aquele carnaval. Eles sabem tim-tim por tim-tim o que aconteceu. Você saiu pra conversar com suas amigas de infância e, não muito depois, ele invadiu a roda e te puxou pelo braço, te chamando de vadia. Eles souberam disso também. Mas você sabe, os amigos dele o amavam demais e não queriam acreditar que esse era o cara que eles conheceram no Ensino Médio. Ele chorou, disse que se arrependeu e, bem, é claro que você deu uma chance. As pessoas erram, não erram? Tudo bem se ele te fez voltar chorando pra casa e lá você é quem terminou enxugando o choro dele. Você o amava, afinal. Assim como os amigos dele o amavam também. O amavam tanto que era inaceitável que você tivesse ficado com alguém quando vocês tinham terminado. Foi aí, por raiva, que ele disse coisas suas pra quem não interessava. Você sabe que não foi a ex dele. Mas você sabe, não é? Você não pode ter liberdade sexual ou afetiva mesmo depois do término. Não em paz.

  Mas ele te amava demais, ele dizia tanto isso. Você o viu chorar por inúmeras vezes depois de todos os erros que ele cometia, porque ele não queria te perder. Ele iria mudar. Mesmo que você soubesse que ele mudaria até o próximo erro. E eles sabiam de todos esses erros. Mais mentiras. Ele te empurrou. Seu braço amanheceu com um roxo. Você chorava de dor e incompreensão dos familiares e dos amigos. E ele chorava de arrependimento porque não queria te perder. Ele te colocou contra seus amigos, te afastou de pessoas. Mas vocês ficaram bem. 

       Ninguém deixava sequer de nutrir amor ou carinho por ele. 

  Ele te lembrou das histórias boas que viveram, do Museu da Imagem e do Som, naquela exposição do Castelo-Rá-Tim-Bum que vocês tanto quiseram ir: e foram. E ele te fez sentir que você tinha do lado alguém especial pra esperar em uma fila quilométrica desde às quatro da manhã pra comprar os ingressos. E por aguentar suas crises de choro e ansiedade. Te lembrou dos planos realizados e dos muitos que ainda tinham de realizar. Da maratona de filmes e dos planos dele de ir trabalhar fora com o seu apoio. Hoje você nem sabe mais se essa história de trabalhar fora era verdade, não é? Quantas mais mentiras ele disse para as outras pessoas?

  Mas você não acreditava que as pessoas poderiam desconfiar tanto de você. Não poderia existir uma forma de desconfiarem de algo que viram, que sentiram, da situação em que você estava. Mas quando as coisas estavam difíceis, ele estava lá. Ele rezava o terço com a família. E ele dizia que torcia e rezava sempre por você.

    Assim ninguém deixava sequer de nutrir amor ou carinho por ele. 

 Ele te deu uma cruz de Tau que a tia dele havia levado para Aparecida do Norte, lembra? Ele dizia ser muito apegado àquela cruz. Dizia que lhe trazia proteção e que havia te dado pra que estivesse sempre protegida. Mal sabia você…
E você deu pra ele aquela cruz da Jornada Mundial da Juventude, de quando você foi pro Rio de Janeiro e que ele quebrou sem querer em um dia chuvoso. Ele estava do seu lado. Ele demonstrava tanto.

  Então houve um dia que ele queria ir à missa, e vocês foram. Há muito tempo vocês não faziam isso. E bem… Quando chegaram você estava com fome. E imaginou que ele também estivesse. Perguntou à ele centena de vezes se ele queria comer algo. Todas as vezes ignorada. Você não entendeu o comportamento. Ele começou a ordenar que você fosse ao quarto e, mais uma vez, você não entendeu. E por não obedecê-lo, ele pegou o controle da sua mão. Eles souberam disso. Todos souberam. Os amigos que o amavam, eles souberam. Depois de pegar o controle da sua mão à força, ele te machucou. Ele te empurrou. Repetiu inúmeras vezes o quanto você era louca, um lixo, uma doente. Eles souberam disso. Todos souberam o que ele fez. E então ele te bateu no rosto. Te prendeu contra a parede. Todos eles souberam. Eles souberam que o seu irmão te ajudou porque você não tinha força física. Foi seu irmão quem tirou ele de cima de você. E todos eles souberam. Os seus amigos, que também eram amigos dele, e que o amavam tanto. Eles souberam que naquela mesma noite ele mentiu pra você e pra mãe dele sobre onde ele havia ido. Eles souberam que você teve de ficar com ele no mesmo apartamento porque sua mãe ficou preocupada – com ele, caso ele ficasse na rua sozinho. Eles souberam que depois disso você ligou pra mãe dele desesperada, esperando algum apoio ou empatia. E eles sabem que você ouviu da mãe dele que esse relacionamento não iria dar certo por sua culpa – e não por ele ser abusivo e ter acabado de te bater. Todos souberam. Souberam que ele continuou te xingando. Mas ele se arrependeu depois.

   Então ninguém deixava sequer de nutrir amor ou carinho por ele. 

  Você tentou manter distância, mas ele foi atrás de você. Ele chorou de novo. E mais e mais vezes ele te maltratou. Mas ele prometeu mudar, e você sentiu alguma diferença. Aconteceram outras coisas, outras mentiras. Você o bloqueou em tudo porque machucou demais, não é? À essa altura você estava ciente sobre onde tinha se metido. Todos eles também sabiam. Eles viram a sua situação. Eles viram seus remédios, suas insônias, os seus medos. Mas ele só tinha uma forma de te encontrar e poder te convencer de novo: Indo ao seu trabalho. E ele foi. Ele sabia exatamente seu horário. Apareceu por lá chorando, te abraçava e te implorava por uma conversa. Lá estava você de novo. Ele disse que te ajudaria com suas crises, que não mentiria mais. E você se tornou abusiva porque não tinha mais confiança, você queria saber de tudo o que ele fazia, a todo momento, invadindo a privacidade dele e você se culpava por isso. Mas você tinha que fazer, porque ele já havia te feito muito mal, mas você precisava dele porque foi assim que ele fez você acreditar. E todos, todos eles sabiam disso. Todos os que importavam. E ficou tudo bem, se é que você pode chamar assim. Você se sentia mal todos os dias, porque nada do que ele dizia era possível saber a veracidade. Mas estava o melhor possível.

  Era ele quem segurava suas crises, quem limpava o seu choro, quem dizia que estava ali. E você sabe, você tinha muitas crises. Você precisava dele, só o remédio não dava conta. Mas naquele fim de semana ele disse que não queria estar com você. Ele sabia que você precisava, mas ele não quis. Ele te disse que não tinha compromisso, não era nada demais. Só um tempo pra ele. E então você foi visitar sua amiga na capital, porque precisava de companhia. Só o remédio não dava conta. Todos eles sabiam. Sua amiga te ajudou, te levou pra tomar uma cerveja e você deu satisfação à ele. Ele te disse que não queria ver a namorada dele em bar. Que se continuasse tomando cerveja sozinha vocês teriam que terminar. Eles souberam disso. Ele decretou o fim do relacionamento e – mesmo depois disso – continuou te mandando mensagens exigindo respeito. Eles souberam da mensagem que ele mandou dizendo que era bom você fazer tudo o que ele mandasse, se não você iria se foder. Assim, com essas palavras. E você decidiu que não voltaria nunca mais para essa lama. Sua amiga soube disso. Os amigos em comum de vocês souberam disso. Eles souberam o tempo todo. 

  E você finalmente decidiu interromper esse ciclo. Ele havia terminado e você também terminou isso dentro de si. Eles souberam porque ele perguntou à uma amiga de vocês onde você estava. Você pediu para que não o falasse nada. Mas falaram. Falaram que você estava indo pra casa. E quando você chegou ele estava lá. Te segurou de novo. Estava desesperado como em todas as outras vezes. Entrou na sua casa sem sua permissão e eles souberam disso. Eles souberam porque você avisou para amiga de vocês que ele estava lá e estava tudo indo mal. E ela pediu desculpas. Desculpas…

  Eles souberam sempre de tudo. Ele chorou novamente. Mas você não tinha força para tirá-lo da sua casa, e seus pais não estavam lá. Você ligou para os pais dele, você ligou para a irmã dele. E nada. Ele simulou vômito e todos souberam disso. Ele só queria te convencer outra vez. Mas não, dessa vez você não cederia. Mas você não tinha mais o que fazer, e então eles também souberam que você teve que chamar a polícia. Só então ele foi embora. Eles souberam disso. Você, garota, continuou com os seus remédios. Eles souberam disso. Você foi fundo. E eles souberam também. Eles diziam que estavam do seu lado.


  Por fim, você voltou à sua terapia, você faltou à aulas, você não dormiu por noites e marcou uma nova data com o psiquiatra, os remédios não estão dando conta. Eles ainda não sabem disso. Eles estão ocupados demais pra saber disso e de qualquer outra coisa sua pois foram visitá-lo na casa dele enquanto nenhum deles sequer perguntou sobre você. Mas você não sabe o que ele está dizendo, não é mesmo? Afinal, ninguém deixou de nutrir amor e carinho por ele.


segunda-feira, 21 de março de 2016

Carta Para o Amanhã

   Não que essa fosse a maior novidade no mundo. Mas não se pode deixar de saber que estar dentro do contexto muda completamente a situação. Então ela se torna uma novidade, não das melhores.
   Um tropeço, uma caída, um dia ruim. Semanas ruins, meses péssimos, poços sem fundo. Assim sucessivamente até que a vida seja um suplício.

"Bobeira se matar, né? Coisa de gente idiota." - Solta quem diz que entende sobre a doença.

   Não dá pra culpar. Eu também achava que entendia.

"Para de frescura, isso é preguiça."
"Você tem que tentar mais."
"Para de chorar."

   E diferente de uma infecção urinária, um desvio na lombar ou um braço quebrado, dificilmente descobre-se o porquê dessa doença ter surgido. Logo, ainda que existam tarjas pretas e vermelhas ou calmantes fitoterápicos, não se faz aí a cura certa e rápida. Talvez nem a cura se faça. É, tem-se a sensação. E que péssima sensação.
   Sensação onde pede-se que seja o último suspiro, ou uma triste ilusão. Porque na realidade mesmo uma ajuda passa a ser questionável, numa mente não muito sã.

  Não precisamos só de ajuda, precisamos de um milagre.

É uma doença do espírito, afinal.
Busca-se Deus, igreja, pais e amigos e miseravelmente vendo todos os esforços parecerem i m p o t e n t e s.
Você impotente.
Inválido.
Falhando miseravelmente ao atualizar a matéria, fazer um café, levantar da cama que seja.
   Ora otimista e, em todas as outras, súbtamente vivendo a agonia que é estar preso dentro de si mesmo. Sem encontrar razão ou causa.
Incapaz de sentir inveja, raiva extrema, alegria saltitante, prazer.
   A cabeça se esvai e se livra de toda a atenção. Em qualquer coisa. Provavelmente tentando de forma automática e desesperada encontrar o motivo pra se existir - "que loucura!" você deve estar pensando.
   Bloqueio criativo, bloqueio social, ora dormindo horas a fio e forçando o sono pra não acordar, ora encarando a insônia como mais um episódio.
   Sem aproveitamento de pensamento, como se uma bola de feno passasse em uma rua vazia levada pelo vento como nos filmes de faroeste. Sem planejamentos, expectativas, sem porquês e sem respostas. Apenas uma absurda agonia que parece interminável.
   E se Hugo Cabret dizia que até as máquinas tem seu propósito e que elas quebradas causavam tristeza por não servirem a esses propósitos, ele também dizia que isso acontecia igualmente com as pessoas. E perder nosso propósito era como estar quebrado.
  Estou quebrada.
  Aguardando quebrada por mais um amanhã. E apenas isso.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre o ódio

     Eu odeio tanta coisa que eu nem sei. Eu odeio autoritarismo, eu odeio o leite muito quente, eu odeio quando os fogos de artifício explodem sem efeito, odeio a distância que a Dianna Agron e o Channing Tatum estão da minha casa e odeio como eu perco momentos legais quando não estou com uma câmera fotográfica na mão pra registrar. E eu odeio quando uma publicação minha de um texto ou foto que eu acho mais importantes tem menos visualizações e curtidas do que as publicações que eu acho menos importantes – as pessoas deveriam adivinhar essas coisas, ter tipo uma mesma crítica que você sobre sua própria obra, só pra você não se sentir muito confuso sobre qual composição foi melhor.  Seria ruim se a obra mais famosa e adorada de Leonardo da Vinci não fosse a que ele mais gosta.
      Eu odeio como as pessoas discutem assuntos polêmicos como se houvesse um ponto de vista certo, melhor ou real. Na verdade eu não entendo sobre isso, vai ver eu também faço isso às vezes; outra coisa que odeio. Eu odeio amar muitas músicas e esquecer algum clássico por aí. E odeio o fato de que a gente nunca vai lembrar-se de todos os clássicos da música (os que a gente gosta) a não ser por meio daqueles tópicos no grupo do facebook onde sempre surgem clássicos e o pessoal lembra do pião ou das bolinhas de gude ou do N’sync – e esses tópicos sempre envolvem a palavra Nostalgia.

     Eu odeio me emocionar mais com a fantasia e com a ficção do que com a vida real, porque querendo ou não, as pessoas não levam muito a sério as coisas emocionantes da vida real. Eu odeio quando o ator norte-americano fala palavrão na personagem e na dublagem ele diz “merda” ou “saco”. Eu odeio quando não acerto a fotometria e a foto sai clara ou escura demais. Odeio a arrogância e a forma como a vontade de ser arrogante se pronuncia às vezes. Odeio a idéia de odiar tanto e quem sabe não saber voltar a amar mais. Mesmo se o Channing Tatum ou a Dianna Agron aparecerem aqui em casa. 

domingo, 2 de março de 2014

Alegoria

       Tanta alegria, tanta arte, realidade misturada com magia. Minha vida, um carnaval. É também, certa tristeza do folião à realeza. Nem sempre a fantasia lhe cai bem, nem só de nota dez vive a escola de samba. E eu, tão bamba, brevemente feliz, mantenho a máscara no rosto, fazendo festa do meu desgosto, me permitindo abrir alas.
       Minha comissão de frente é meu sorriso, ainda que incerto e sem motivo. Faço da desesperança confete e serpentina que eu jogo pro alto e deixo pra trás. Mas a tristeza não fica ausente. Minha marchinha contente é só um samba triste e, mesmo assim, todo mundo pula, todo mundo samba escondendo a tristeza atrás do bloco.
      Porque não é segredo pra ninguém: todo carnaval tem uma Colombina confusa e um Pierrot aquebrantado. Todo mundo tem um pouco de Arlequim. Sempre existe um tirolês e uma Odalisca dançando bandeira branca. Haverá sempre uma Janice que não se lembrará, e haverá sempre um Píndaro sendo esquecido. A vida é sempre um carnaval, cheio de histórias, fantasias e confete. É um samba de ir embora e só. A vida é uma alegoria.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Velho-novo recomeço

Dezenove horas e o pôr-do-sol anunciava um começo de noite quente, não havia porque esperar menos de um país tropical em época de verão. A temperatura e a ocasião me permitiam um short, um tênis confortável qualquer e a blusa mais negra e larga encontrada em qualquer lugar do meu guarda-roupa.
Saí de casa esperando muito. Desde que me permiti sair dos parâmetros de todos os capítulos chatos da existência, pude trocar, rever e experimentar de todos os episódios e de toda a trilha sonora do máximo de dias que eu me dava conta de que ainda passava algum ar pelos meus pulmões. Amigos, pessoas que tinham uma peculiaridade e uma história, estavam me esperando no portão. Coloquei os pés na calçada lisa, fui invadida brevemente com todas as ondas de calor possíveis e em seguida, tomada pela brisa leve e refrescante. É, talvez, umas das coisas que mais gosto do verão – talvez a única coisa.
Já havia um tempo da nova-velha realidade em que eu me encaixava. Depois de todos os desconfortos e desconsertos sofridos, talvez ainda não estivesse tão acostumada com o recomeço. E isso, posso dizer seguramente, não era ruim. Ao contrário, me sentia confortável por um forte desprendimento das coisas, que obtive desde que passei por experiências de grande estorvo. Quem nunca passa por isso? Quantos se permitem sair disso? Era noite de gastar com as melhores bebidas, e as piores também, ir ao show que gostávamos, com pessoas que agradavam umas às outras. Isso não é felicidade pra você?  Ainda bem que qualquer um pode encontrar qualquer forma de se fazer feliz, porque nós estávamos, e nós havíamos encontrado algo.
Entramos na casa noturna escura, quente, com cheiro adocicado. As luzes brilhantes e ilusórias dos holofotes de acordo com o som que ecoava dos instrumentos pareciam bater nos olhos no mesmo ritmo que a música vibrava nas costelas. Eu sentia meu coração bombeando o sangue e o estômago leve. A banda já tocava impecável no palco e, antes que eu pudesse retomar o fôlego, meu olho pôde observar claramente entre todas as luzes quem eu jamais pudera imaginar encontrar. Um lugar improvável, em um tempo improvável. É engraçado como nenhuma das coisas zeram quando já foram vividas e revividas. Era a nossa banda, aquela que conhecemos juntos, vimos crescer e atingir o estrelismo, acompanhando os CD’s e DVD’s. Agora estávamos nos encarando e ouvindo da forma mais direta possível o que todas as composições diziam e que já haviam mudado completamente o significado pra mim. Ele olhou fixamente, houve algo ali.
Talvez os dois estivessem impressionados com o que o destino reservou, já que minha crença em algo que Deus pudesse fazer já não era tanta assim. Acredito que a dele também não. Era um tanto quanto evidente, mas ele preferiu continuar fazendo as pessoas acreditarem que ele ainda rezava, ou algo do tipo. Mas as sextas e sábados saía com os amigos da faculdade pra encher a cara e fumar maconha. Deus veria de qualquer jeito, mas não reclamaria. As pessoas a sua volta sim, o julgariam e pregariam o quão errado era. O problema não era Deus, eram as pessoas. Depois de chegar a essa conclusão, o quê mais eu poderia pensar? Quase reprovou em uma das matérias da faculdade. Mas conseguiu se safar. Não era nenhum perdedor. Ou pelo menos, jamais demonstraria isso a alguém.  Era paparicado quando aparecia na casa da mãe nas férias. Mesmo preso nas crises existenciais e dando PT alcoólico nas festas, jamais deixava de ir à missa. Mas não podia fazer nada do cotidiano universitário quando dormia na mãe. Era um cara feliz, até demais. A música tocando e a bateria explodindo nos pulmões completavam o cenário do cara se divertindo com os amigos. Impecavelmente sorridente.
- Oi, tudo bem? Nossa! Quanto tempo! – Disse sorrindo, como quem se preocupava normalmente.
- Tudo pô, e você? – Não senti nada.
Pena, talvez. Felicidade. Alívio por saber que querendo ou não, as pessoas seguem. Seguem suas vidas, seus dias, sua jornada. Pena por poucos fazerem isso da maneira que os faça feliz, à sua própria maneira, simplesmente porque é trabalhoso demais tomar as rédeas da própria felicidade. Alívio por saber que eu tomei as rédeas de todos os meus sorrisos. Pena pelos sorrisos alheios que não são completos, que adiam a história da própria vida porque “agora não dá” e passam a viver de coisas secundárias que satisfazem tanto quanto tofu.
Era uma noite de verão, com pessoas que me faziam bem e eu havia recomeçado. Mas me dera conta de que havia muitos caras daquele, rindo impecavelmente, sendo apenas metade do que desejava ser. E eu, que pensei em abrir mão da minha segunda chance, não sentia nada mais, só o som batendo no peito e a sensação de liberdade refazendo os pontos da minha história.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Cotidiano de um ativista cansado


    Até quanto vale a informação? Hoje ela chega, hoje se espalha, discorre-se sobre ela na internet, no bairro, no grupo, no trabalho, na mesa de bar. Amanhã ainda é assunto, surge luta, surge o ativismo, a indignação e até as piadas. E depois? Depois não mais. Próximo.
   O inocente foi baleado. Até onde vai a indignação? Hoje ela chega, se espalha, discorre-se sobre ela na internet, no bairro, na mesa de bar. Amanhã é assunto, vira luta, vira ativismo e busca. Vira piada também. E depois? Depois já era. Esquece-se da luta, desfaz-se da piadinha que é agora velha. A luta esquecida, foi esquecida antes de resolver? Ninguém sabe responder.
   Até vir o próximo assunto, a próxima notícia, informação. Não veio? Que tédio! Que raro. Volta lá no inocente baleado, volta lá na primeira informação. Retomam-se as piadas, retoma-se a luta. Resolveu? Não. A luta nunca acaba, o inocente é morto todo dia, todo dia uma nova introdução. O final? A gente já sabe. Piadas refeitas, ativismos pela metade. Resolvemos um ou outro problema da nossa nação. Estamos Longe. Retoma o fôlego, acorda, mas não levanta, vê o feed aí rapidão. Surgiu uma luta nova, curte o post, sai pra rua, conquista e desconquista, desista! Não adianta mais não.
   Fica a piada, fica o assunto, se esvai a multidão. Senta no sofá, pega o controle, assiste televisão. Faz só a piada, dá menos trabalho, lutar é cansativo mesmo que surja sempre um novo motivo.  Surgiu nova notícia, e já diria 5 a Seco:  amanhã ela vai figurar  nas páginas das redes sociais, em mil reprises nos telejornas, impressa em um flyer que você recebe num bar ou na pilha de e-mails a encaminhar. Mas depois – amanhã – nunca mais.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Do que eu me lembro.

      Eu não me lembro de muita coisa. Eu não me lembro bem do que eu sou ou do que eu deixei de ser. Eu sei quase nada. Eu lembro de quando eu me importava o tempo todo sobre o que eu seria, o que as pessoas achavam quem eu seria, o que eu poderia fazer por essas pessoas, o que eu poderia fazer pelo mundo ou por alguém próximo. Poucas vezes pensei o que alguém, ou o que o mundo pudesse fazer por mim. Pensei muito sobre como me doar em alguma coisa que eu acreditava, pelos outros.

      Mas aí chegou a hora de pensar em mim. E, na verdade, bem... Eu não soube o que pensar. Quando eu pensei, saiu faísca. Eu não sabia nem responder as perguntas que eu me fazia. Nem mesmo onde procurar essas respostas. Eu ouvi a vida inteira de como você tem que pensar por si mesmo, de como você tem que agir pela sua consciência. E aí, quando eu fui tentar, vi a sutil desgraça que é o ser humano renegar o que se propôs a colocar como ensinamento, regra, ou qualquer coisa que sei-lá-quem inventou pra tentar fazer um mundo menos insano - e mais controlador.

      Para decepção de toda essa gente que caga regra sem fim, acho que a notícia é que o mundo só se resume cada vez mais em insanidade. E aí eu fui pensar em mim. E eu continuei sem saber o que pensar. Não soube muito o que fazer também. Nem tinha pensado em sair geograficamente do lugar, mas a minha cabeça já tinha ido tão longe, que eu acho que pirei. E toda essa gente dizendo o que eu devia fazer, como eu deveria fazer e onde eu não deveria pisar. A verdade é que eu comecei a querer cair fora. Sei lá, passar uns tempos num chalé, esquecer toda minha confusão mental. O que me impede? Fora a falta de grana, o apego, o medo, o cansaço de ouvir desagradáveis sermões e uma falação de coisas que pouco interessam... nada. 

   -  Todo mundo vê as cachaças que eu bebo, mas ninguém vê os tombo que eu levo - disse uma vez, um professor meu.

      É exatamente isso. É isso! Enquanto toda essa gente exalava exclamações de como tudo deveria ser, severamente calculado, pensando estar fazendo algum tipo de benefício à sociedade, eu só estava encontrando a minha insanidade. Saindo de um padrão que eu vivia, que eu vivo. A diferença é que eu não enxergava esse padrão. Foi como se minha alma saísse do meu corpo e o visse de fora, ainda vivo.
  
   - Eu tô meio que ficando fora dos trilhos. - Comentei com uma amiga, me dando conta.
   - O que seria "andar nos trilhos" pra você? - Ela perguntou e eu parei. Não havia pensado muito naquilo. Era só mais uma pergunta que eu não sabia responder.
  - Não sei bem o que é andar nos trilhos, mas tô descobrindo o que é estar fora deles.